terça-feira, 4 de agosto de 2009

Importância seletiva

Acabei de ler um livro que dá margem pra muita reflexão (não, não era a Bíblia. Era bem o oposto disso). Num de seus capítulos, o protagonista pergunta o que é um milhão. Um milhão de quê? Pessoas. Pombos. Centavos. Disse que todo mundo sabe o que uma moeda é capaz de fazer quando jogada de cima do Empire State Building. E aí ele imagina o que aconteceria se começasse a cair moedas de uma altura muito grande em toda a Nova York. Centenas, milhares de moedas abrindo crateras nas ruas da cidade. E ele se esconderia sob um toldo ou na recepção de um prédio com todos os outros que estivessem tentando salvar suas vidas. A cidade inteira procurando abrigo se começasse a chover dinheiro.

Ora, ninguém teria medo de dez mil dólares em Nova York. Mas um milhão de centavos é muito mais que um milhão de centavos, pondo o assunto nessa perspectiva.

Isso iluminou de novo um fato que eu sempre observei e que chegou a virar dois rascunhos, mas nunca um post nesse blog. A significância de qualquer coisa só depende de perspectiva. De qualquer coisa.

Daí vem a importância que atribuímos às coisas. Trinta anônimos que responderam a uma enquete são só trinta anônimos. Trinta vítimas fatais da gripe suína no Brasil são só trinta pobres azarados que eu não conheço. Mas trinta amigos próximos que estivessem em Nova York sem abrigo durante a tal chuva de moedas seria um puta dum sofrimento. Os dois primeiros exemplos são só números frios, mas meus amigos são meus amigos e por isso eu sofro. Sofrimento seletivo é humano.

Porque tudo, tudo é questão de perspectiva. Uma menina gritando por Jonas Brothers ou quebrando o cotovelo de Robert Pattinson é só mais uma que dá importância demais a um cara que não lhe dá importância alguma. E não tem essa de "mentira, eu adoro meus fãs!". O "fãs" aqui só existe no plural. A menina é só mais uma da massa.

E amar a massa é amar ninguém. Amar o ser humano, amar o feminino, o masculino, é amar ninguém. Fazer isso é pôr-se numa posição muito distante do homem, posição que o impede de ver o indivíduo, o indivíduo de fato, e que, assim, o impede de o amar. O que me importa me toca e me afeta de alguma maneira. O que me importa não é um nome, não é um grupo, não é uma definição abrangente e institucionalizada de o que é "ser humano". Se eu gosto de alguém, é por causa de suas peculiaridades. E para vê-las é necessário olhar mais de perto – pedindo licença a Sam Mendes e sua Beleza Americana.

Lamento pelas trinta vítimas da gripe. Pode ser até que eu venha a ser uma delas, só por praga de Deus por eu ser uma "sem-coração". Mas estou muito mais feliz pelas pessoas que eu amo e que ainda vivem do que triste pelos brasileiros vitimados.

Eu amo. É no mínimo uma ironia eu ser "sem-coração".

***


Foi lendo um post de um amigo que me espocou a ideia que acabou virando post. Por isso não tem comentário meu no seu blog dessa vez, Cleber. O meu comentário pro seu último texto é esse texto aqui. Obrigada por me destravar :)

domingo, 5 de abril de 2009

Questão n° 17. Leia a tirinha a seguir:








Agora, explique, com suas próprias palavras, como acontece o humor no diálogo.


Oras, por favor. Se tinha um tipo de questão que me irritava nas provas de ensino fundamental, era esse. Existe coisa mais sem-graça que explicar a piada?

Eu geralmente pensava numa resposta mais legal do que a que eu escrevia. Ela era essencialmente assim:

R: Sim, pois não. O humor se dá, em especial, na dramatização e na resposta do Calvin, que é engraçadíssima, morri de rir. Aliás, não acho que seja assim tão difícil entender como acontece o humor. Você não entendeu a piada, né? Também não vou explicar, vai perder toda a graça. Lê de novo, você consegue fazer isso sem a ajuda de uma criança.

(Porque, naquela época, eu era uma criança.) Óbvio que eu acabava escrevendo algo bem diferente, com alguma coisa sobre inversão de expectativa ou algo do gênero. Eu sabia me adequar aos moldes.

A questão é que eu não conseguia imaginar como alguém conseguia ser tão sem-graça. Mania comum de professor? Ou seriam os adultos em geral todos sem-graça? Porque Calvin é Calvin, oras! E qualquer explicação racional lhe tira o sentido.

E eu ia nessa linha de pensamento até alguns dias atrás, quando entrei na Sabugosa e encontrei Criaturas Bizarras de Outro Planeta (o livro, digo). Enquanto eu lia, percebi que, inconscientemente, eu tentava achar uma explicação razoável para o que o Calvin estava fazendo com o Haroldo. Como diabos eles jogavam baseball, se este é só um bicho de pélúcia?

Só um bicho de pelúcia...

Fechei o livro e os olhos e não soube mais o que estava havendo. Como eu pude pensar algo assim? Estaria eu me tornando, assim... não, não sem-graça, eu procurava uma palavra pior.

Enfim, essa palavra veio com a declaração que a minha irmã fez nesse fim-de-semana, a pior e mais inoportuna que ela poderia ter feito: "Caraca, você faz 18 em menos de um mês!"

18. Menos de um mês.

Puta-que-o-pariu, eu tô virando adulta.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

O mundo não é original

Depois de milênios de existência da vida humana na Terra, tudo o que tinha a ser pensado já o foi. Não há mais idéias novas. Pelo menos é essa a impressão que tenho quando vejo o que a imprensa mostra.

Mas, será que o problema está em mim, ou tudo o que vejo é repetitivo? Nada mais me surpreende. Não é mais original pedalar pelado no meio de São Paulo, nem dar a luz a quadrigêmeos, nem usar sutiãs de bacon, nem meninas retardadas de sete anos apresentando programas de TV... Eu estou mesmo desesperançosa com o futuro. E isso porque não param de me chegar exemplos e mais exemplos do que já não é mais original.

Nem buscar ser original é ser original.

Nem questionar o governo, ou os costumes, ou o mundo, nada disso é original!

Nem procurar bandas independentes no MySpace é original.

(Alguém fala pros judeus que o movimento sionista não é mais original?)

Meu Deus, cadê o novo?! Sumiu? Isso é porque a gente se contenta com falta de originalidade e se acostuma com 20 anos de Faustão todo domingo? A gente gosta de ouvir a mesma coisa, ver a mesma coisa, ler a mesma coisa, dançar a mesma coisa, comprar a mesmamesmamesmamesmamesmaMESMACOISA!!

Estou realmente decepcionada com a humanidade.

De repente, me dou conta que o mundo não é original. O mundo não é original. Acho que não existe notícia que caia mais como uma bomba do que essa. Para mim.

Eu sinto a necessidade do descobrimento de talentos. De vanguardistas com conteúdo, ousados, diferentes. Corajosos. Eu poderia sê-lo. Você poderia sê-lo. Mas qual não é o peso de ser original? Os olhares, as críticas, as risadinhas. É o meu desabafo de menina de calças listradas e cabelo de Bozo, que enfrenta todo-santo-dia esse tipo de coisa. E olha que não sou original. Nem de longe. No máximo, diferente.

Num mundo em que o normal é ser comum-insosso, o original é feio. E, infelizmente, não vejo ninguém querendo ser feio – nem alguém que tenha capacidade para tanto.

Diante disso, vou existindo apenas por conveniência.

***

Peço licença agora para fazer uma pergunta pouco original: alguém sabe qual é o sentido da vida?
E viver + sorriso amarelo não vale como resposta.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Ainda a respeito do tempo,

Alguém devia nos prevenir quanto ao nunca mais. Ele vem, sempre vem, invariavelmente. O bom só é bom porque finda no nunca mais, e a gente sabe disso. Mas não há preparação para o nunca mais. Quando ele vem, pronto, acabou, mais não há. Agora, nunca mais.

Essa liberdade que nunca mais. Esse momento que nunca mais. Essa infância, essa escola, essas amizades, essa vida. Essa vida que nunca mais.

E esse tempo que nunca mais. Esse instante que... o quê? nunca mais. Esses esses, esses aqueles, esse outro. Esse outro que nunca mais. Kate Nash, "Merry happy".

Esse outro tempo pelo qual eu tanto ansiava chegou. Bate à porta enquanto o que me pertencia foge pela janela. Ele se afasta - só assim eu percebo o quanto ele era belo. Isso tudo é belo porque nunca mais?

O que resta a fazer é atender a porta. Mas eu sempre dou uma espiada na janela. Invariavelmente.


Morrerei precocemente aos 47 anos com um quadro de nostalgia aguda.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Tempo, mano velho

As coisas estão rápidas. Rápidas demais.

As conversas são rápidas. As novelas são rápidas. As viagens, a queda da Bolsa, os seqüestros. A retirada do trema de "seqüestros". Foi tudo rapidinho.

Mas tudo está correndo mesmo. Relacionamentos duram uma noite, hectares de floresta são dizimados em poucas chamas, lançamentos de celulares a cada semana. A formatura de 3° ano tá aí! Hoje, de lento, parece que só as propagandas da Warner.

Dá até vertigem. Mas passa rápido.

***

Em uma viagem que fiz a Goiás Velho, há uns três anos atrás, aconteceu um fato curioso: uma velha.

Eu e família saímos cedo do hotel pra rodar na cidade. As casas de Goiás Velho ou são de arquitetura antiga senhorial, ou são muito pobres. Numa casa pobre, estava sentada uma velha em frente à porta aberta.

Depois do rolé pela city há-há-há voltamos ao hotel pelo mesmo caminho.

E a velha continuava lá.

Não creio que ela estivesse vendo TV ou ouvindo rádio ou fazendo qualquer outra coisa. Mas ela continuava exatamente na mesma posição em que a vi pela primeira vez. Absolutamente imóvel.

Posso dizer que me lembro de muito pouco daquela viagem e até da própria cidade, mas daquela velha eu não me esqueço. Era como se... como se ela não habitasse esse mundo a que estou acostumada, esse mundo rápido e confuso. Parecia que, naquele rosto marcado pelo tempo, já não passava tempo algum.

Ou talvez ela já estivesse morta. Não sei.

Mas ela me fez parar. Parar e pensar a fundo no que diabos eu estou fazendo aqui. Afinal, eu não sou rápida. Não acompanho o curso do mundo, e percebi que nem quero. É possível se encaixar num mundo tão caótico sem ir no seu ritmo? É, eu acho que é. Só preciso aprender como, mas tudo a seu tempo. Ou melhor, ao meu tempo.

Vou voltar a escrever. Mesmo um blog à disposição na internet pode me fazer olhar um pouco mais para dentro.

sábado, 20 de setembro de 2008

Para uma nova experiência

Diz não e todo um mundo de possibilidades se fecha. Experimenta. Ou melhor, não experimenta. Quero dizer, experimenta te abrir. Estou sendo confusa?

Experimenta fazer o impensável: conversar com aquele que te magoou há um tempo, tratar de aprender logo aquela receita de torta, tomar coragem e depilar as axilas com cera. Quem sabe?

Pode também tentar fazer o que no começo pode parecer maçante. Organiza teu álbum de fotografias, lê o livro gigantesco do vestibular, conserta a bicicleta parada há anos, poda a amoreira que não mais dá frutos. Quem pode dizer que ela não florecerá mais uma vez?

Ou simplesmente, tenta sair do óbvio. Atenda o telefone com sorriso no rosto, usa a louça florida e parada para um lanche comum, fecha o guarda-chuva quando te der na telha e se molha. Não pode ser tão ruim.

Abraça mais as pessoas. Abre mais a cabeça. Quem sabe um pouco de otimismo, mesmo dos mais clichês, pode te trazer alguma experiência até então inusitada? Quem sabe?

Bom, eu não faço idéia. Então, faz o seguinte?

Experimenta.