segunda-feira, 25 de julho de 2011

Muitas foram as vezes

em que disse, durante o semestre letivo, que, ah se eu tivesse um tempo de folga, leria tal livro, veria tal filme, coseria, cozinharia, escreveria. Passaram-se já duas semanas e não fiz nada dessas coisas que prometi fazer pra mim e só pra mim. Assim, pelo andar da carruagem, teria daqui pra frente mais três semanas de férias de puro ócio nada criativo. Uma bosta de ócio. Ainda bem que acordei a tempo.
Ponto pra mim. Agora, dá licença que eu vou ser feliz comigo.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Bruto esforço cotidiano

Passava na frente da livraria quando a viu, do outro lado da vitrine. Ele levantou a mão, mas calou-se no meio do Ma – melhor não, pensou. Deixou-a estar.

Na frente da vitrine, de camarote, pôs as mãos nos bolsos e ficou a ver as estantes e como ela passeava entre elas. Como meio que dançava entre elas. Como colhia os livros que gostava, os desenhos das capas a chamando. Como fazia caretas para as outras capas mais caladas. Com as mãos no bolso, de camarote, ele ria das caretas.

Via como balançava a cabeça. Como mexia os lábios com a música. Como fechava os olhos. Como era só ela só. E ele escondido.

Com as mãos no bolso, saiu do camarote antes do término do show.

**

Chegou em casa chateada. Ninguém presenciara o espetáculo da naturalidade forçada. Assim, de que servia?

Jogou o livro a um canto, apagou as luzes. Despiu-se e virou ela mesma. Virou na cama e deixou-se virar ninguém.

Até o próximo dia.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A exemplo da Leah, de thxthxthx.com

Querido Julho de 2010,

Obrigada por ter demorado tanto para criar esse frio na barriga gostoso e por ter chegado rápido o suficiente pra me fazer continuar a acreditar que isso está realmente acontecendo.

Seja bem-vindo, e obrigada por trazer tantas mudanças lindas contigo!

Beijos,
Lu


P.S.: Queria fazer uma bilhete bonito a mão igual aos da Leah, mas meus garranchos não saíram muito bem. Espero que não se importe com bilhete via web. Ainda é de coração.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Sobre o amor

Gosto de chorar e sentir as lágrimas descendo nas bochechas. E de soluçar chorando.

Minha mãe, não. Ela chora sem fazer barulho e enxuga as lágrimas antes de elas saírem dos olhos quando ela está acompanhada, e é ainda mais discreta quando está perto de mim e de meus irmãos. Trabalho de mãe, essa coisa de esconder sentimento.

Ontem, a gente viu um filme que fez até minha irmã chorar – mas não meu pai. Que eu saiba, ele só chorou com "Querido Frankie" –. Era de uma mãe que perdia uma filha querida pra uma doença que ela, a mãe, demorou para aceitar que levaria a menina sem tardar. É um filme muito cheio de amor. Ao final, a minha mãe deu um beijo nas nossas testas e abençoou nossa noite como sempre faz. Ela chorou sem fazer barulho durante o filme, e fez o mesmo quando abraçou meu pai e escondeu o rosto e mais algumas lágrimas em seu braço. Ainda abraçada com ele, ela me olhou e me flagrou olhando pra ela. E sorriu.

Trabalho de mãe. Esconder que tem todo o sentimento do mundo.

domingo, 4 de outubro de 2009

Gratuita

"Na outra encarnação – digo, se houver outra encarnação – eu quero ser o vento".

Foi o que eu ouvi enquanto passava na roleta do ônibus hoje de manhã. Foi o motorista quem falou. Engraçado, não é preconceito nem nada, mas já vi motorista falar palavrão e contar história da família, mas nunca vi um fazer poesia.

"Oxi, por quê?", respondeu a cobradora (porque ele tava falando com a cobradora).

E ele ficou calado. Ela meio que fez cara de zombaria e eu passei o cartão e rodei a roleta.

Ela não entendeu; mas eu entendi.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Importância seletiva

Acabei de ler um livro que dá margem pra muita reflexão (não, não era a Bíblia. Era bem o oposto disso). Num de seus capítulos, o protagonista pergunta o que é um milhão. Um milhão de quê? Pessoas. Pombos. Centavos. Disse que todo mundo sabe o que uma moeda é capaz de fazer quando jogada de cima do Empire State Building. E aí ele imagina o que aconteceria se começasse a cair moedas de uma altura muito grande em toda a Nova York. Centenas, milhares de moedas abrindo crateras nas ruas da cidade. E ele se esconderia sob um toldo ou na recepção de um prédio com todos os outros que estivessem tentando salvar suas vidas. A cidade inteira procurando abrigo se começasse a chover dinheiro.

Ora, ninguém teria medo de dez mil dólares em Nova York. Mas um milhão de centavos é muito mais que um milhão de centavos, pondo o assunto nessa perspectiva.

Isso iluminou de novo um fato que eu sempre observei e que chegou a virar dois rascunhos, mas nunca um post nesse blog. A significância de qualquer coisa só depende de perspectiva. De qualquer coisa.

Daí vem a importância que atribuímos às coisas. Trinta anônimos que responderam a uma enquete são só trinta anônimos. Trinta vítimas fatais da gripe suína no Brasil são só trinta pobres azarados que eu não conheço. Mas trinta amigos próximos que estivessem em Nova York sem abrigo durante a tal chuva de moedas seria um puta dum sofrimento. Os dois primeiros exemplos são só números frios, mas meus amigos são meus amigos e por isso eu sofro. Sofrimento seletivo é humano.

Porque tudo, tudo é questão de perspectiva. Uma menina gritando por Jonas Brothers ou quebrando o cotovelo de Robert Pattinson é só mais uma que dá importância demais a um cara que não lhe dá importância alguma. E não tem essa de "mentira, eu adoro meus fãs!". O "fãs" aqui só existe no plural. A menina é só mais uma da massa.

E amar a massa é amar ninguém. Amar o ser humano, amar o feminino, o masculino, é amar ninguém. Fazer isso é pôr-se numa posição muito distante do homem, posição que o impede de ver o indivíduo, o indivíduo de fato, e que, assim, o impede de o amar. O que me importa me toca e me afeta de alguma maneira. O que me importa não é um nome, não é um grupo, não é uma definição abrangente e institucionalizada de o que é "ser humano". Se eu gosto de alguém, é por causa de suas peculiaridades. E para vê-las é necessário olhar mais de perto – pedindo licença a Sam Mendes e sua Beleza Americana.

Lamento pelas trinta vítimas da gripe. Pode ser até que eu venha a ser uma delas, só por praga de Deus por eu ser uma "sem-coração". Mas estou muito mais feliz pelas pessoas que eu amo e que ainda vivem do que triste pelos brasileiros vitimados.

Eu amo. É no mínimo uma ironia eu ser "sem-coração".

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Foi lendo um post de um amigo que me espocou a ideia que acabou virando post. Por isso não tem comentário meu no seu blog dessa vez, Cleber. O meu comentário pro seu último texto é esse texto aqui. Obrigada por me destravar :)